Nadismo – Uma filosofia para o século XXI

Nadismo

Em tempos bicudos e incertos, tais quais os atuais, onde impera a obsolescência planejada das idéias, uma ponta de esperança brilha ao final do túnel – O Nadismo.

Mas, o que é o Nadismo? Qual a sua origem? Seus pressupostos? Seus objetivos?

No breve artigo que se segue, você, nobre leitor, entrará em contato profundo com esta milenar escola do pensamento (ou da ausência dele) e entenderá porquê, dentre toda a panaceia de crenças, filosofias e mitos da contemporaneidade, somente o Nadismo possui as qualidades necessárias para conduzir a humanidade em direção a um futuro glorioso e próspero.

O que é, afinal, o Nadismo?

Em linhas gerais, o Nadismo é… Nada.

Mas não pense você que trata-se deste nada superficial e corriqueiro ao qual todos vocês estão habituados. Não! O Nadismo vai muito além de uma lata vazia de Pringles. O Nadismo versa sobre a vivência e a prática profunda e auto-consciente do nada dentro da existência humana. Entrando em contato com as esferas mais fundamentais e cósmicas do ócio e da procrastinação, o homem é capaz de atingir elevados estados de inutilidade e displicência, que são, segundo o pensamento nadista, os objetivos finais de nossas passageiras existências.

Qual a origem do Nadismo?

Apesar de toda a atual hype em torno no Nadismo, é preciso saber que suas raízes encontram-se firmemente plantadas em séculos de história e evolução. As sementes do Nadismo remontam aos primórdios da filosofia, lá na Grécia antiga, que como todos vocês sabem, é antiga pracaráleo.

Todos conhecem o famoso filósofo Epicuro de Samos, fundador do pensamento epicurista. Epicuro pregava uma vida simples e de prazeres moderados como o caminho para livrar o homem do sofrimento, do medo da morte e das angústias da vida. O que poucos sabem, no entanto, é que Epicuro teve entre seus seguidores o extraordinário Preguiçurio da Capadócia.

Como todo bom capadócio, Preguiçurio nunca foi lá dos mais chegados a pegar no pesado. Tendo entrado em contato com a filosofia de Epicuro, Preguiçurio concluiu que, sendo o trabalho a principal fonte de sofrimentos e angústias da sua vida, era preciso elimina-lo completamente para assim alcançar o estado de paz e tranquilidade postulado pelo epicurismo. Nascia aí o embrião do Nadismo.

Muito discute-se sobre a profundidade das reflexões de Preguiçúrio, ou mesmo sobre a real extensão de seu sistema filosófico. A questão é que temos conhecimento do pesamento preguiçurista apenas através de fontes indiretas, visto que Preguiçúrio jamais quis ter o trabalho de registrar seus aforismos por escrito.

Sabem como é, ia dar trabalho.

O termo Nadismo, no entanto, surgiu apenas na Roma Imperial. A elite romana era bem conhecida por sua vagabundagem e ociosidade explícitas. As idéias preguiçuristas encontraram aí amplo e fértil terreno, tendo entrado em voga por volta do Séc. II a.C. Aqui surge o nome de Inútius Maximus, conhecido poeta, músico, porra-louca e posteriormente filósofo. Inútius desenvolveu ainda mais os pressupostos do preguiçurismo, e concluiu que não só o trabalho, mas toda e qualquer atividade que demande esforço físico ou intelectual era prejudicial ao bem estar do indivíduo. Batizou então sua nova corrente filosófica de Nadismo (Nulluslismus no original), a qual espalhou-se por todo o império romano. Mas não com muita velocidade, pois, obviamente, correr cansa.

O Nadismo tornou-se muito popular, sobretudo entre os magistrados do Senado Romano, o que acabou por garantir a Inútius a tranquilidade e liberdade necessárias para dedicar-se ao desenvolvimento mais aprofundado de suas idéias (fato que não ocorreu, é claro, pois Inútius estava sempre ocupado demais praticando o Nadismo).

Durante a Idade Média o Nadismo praticamente desapareceu, vindo a ser redescoberto apenas no séc. XIX pelo Arqueólogo Teuto-Baiano Herman do Acarajé. Herman resolveu tirar um cochilo atrás da moita durante as escavações de Pompéia, e por acaso encontrou uma cerâmica onde estavam gravados todos as doutrinas de Inútius Máximus. Inicia-se assim a era moderna do Nadismo.

É certo que uma corrente filosófica tão revolucionária e controversa quanto o Nadismo atrairia a incompreenção e o ódio de muitos. Durante a segunda guerra os adeptos do Nadismo foram igualmente perseguidos por fascistas e comunistas. Os da esquerda detestavam os nadistas devido a este estranho fetiche socialista em torno do trabalhador. Já os fascistas ficavam muito contrariados pelo fato dos nadistas não praticarem o “hail hittler”, uma vez que esse negócio de ficar levantando o braço toda hora era cansativo por demais.

Na primeira década deste século, o Nadismo sofreu nova onda de calúnias e desacreditação, capitaneada principalmente por obras como “Quem mexeu no meu queijo” e outros questionáveis títulos de auto-ajuda.

Mas o Nadismo, meus caros, está fadado a tornar-se a filosofia mais influente do século XXI. Apenas o Nadismo é capaz de lidar com as tensões crescentes e a insatisfação espiritual do homem contemporâneo. Só o Nadismo poderá vencer as pressões impostas pelo sistema capitalista contra o indivíduo.

Vertentes do Nadismo Contemporâneo

Atualmente o Nadismo manifesta-se através de diversas escolas e correntes interpretativas, embora todas conservem a essência das antigos prescrições de Inútius Maximus. Listamos abaixo, as mais importantes.

O Nadismo Auto-reflexivo.

Trata-se da prática do Nadismo físico-motor conjugado com as teorias psicanalíticas lacanianas. O Nadista auto-reflexivo (ou auto-nadista, para alguns) busca o profundo conhecimento interior e a extrema inutilidade perante a sociedade através da permanente avaliação e reavaliação de todas as auto-avaliações que realizou ao longo da vida.

O Nadismo Prospectivo

Escola que alimenta a prática nadista com momentos profundos de planejamento e pré-visualização de diversos projetos, atividades e felizes acasos futuros que jamais se concretizarão. Esta vertente é muito comum entre os apostadores regulares de loterias.

O Nada-hippismo.

Um pouco datado, mas ainda praticado por muitos. O Nada-Hippismo preconiza o uso de psicoativos (ou seriam psicopassivos) como meio potencializador do Nadismo tradicional. Esta vertente possui um historico de muitas controvérsias. Nos anos 60 alguns praticantes acreditavam que deveriam combinar as práticas nadistas com o canto, a dança e o amor livre, enquanto outros, mais ligados às tradições, consideravam tais atividades expúrias e desvirtuadoras da proposta.

O Paredismo

Escola minimalista do Nadismo, o Paredismo prega que os estados elevados de inutilidade do ser podem ser alcançados a partir da contemplação passiva de superfícies planas, tais como paredes, tetos e muros.

O Nadismo Acadêmico

Esta vertente surgiu e têm se desenvolvido rápidamente junto à crescente popularização dos cursos de nível superior e de pós-graduação. Eminentemente teórico, o Nadismo acadêmico combina a aparente produtividade com o uso intensivo de linguagem rebuscada e analogias remotamente relevantes, com o objetivo final de produzir… Nada.

O Procrastinantismo

Os procrastinantistas praticam o Nadismo através do permanente adiamento de toda e qualquer atividade complexa, desagradável, ou para a qual eles devam levantar do sofá (o que inclui até mesmo pegar um copo d’agua na cozinha).

O Nadismo Pragmático

Também conhecido como Nadismo de Guerrilha ou Nadismo da Linguagem Corrente, o Nadismo Pragmático parte do compreenção de que a vida contemporânea impõem severas restrições à prática pura e autêntica do Nadismo tradicional. Como solução, preconiza a inserção de atividades nadistas ao longo do dia, também como forma de contestação político-social. Tais práticas incluiriam o cochilo no ônibus, o cafezinho prolongado, a enrolada na meia hora final do expediente e o uso intensivo do botão “soneca” no seu despertador.

O Nadismo Virtual

É fato que a popularização do uso da internet, com suas redes sociais, vídeos e jogos on-line também influenciaria profundamente a prática nadista. O nadista virtual concentra suas energias(?) na repetição mântrica de cliques com o mouse e na observação estática da tela luminosa do seu computador.

O Futuro do Nadismo

O que podemos esperar do Nadismo nos próximos anos? E décadas?

Basicamente podemos garantir que o Nadismo irá permanecer. Permanecer no mesmo lugar, sem se mexer. E não mudará nadinha, nada mesmo!

Nem o canal da televisão.

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3 Comentários

Arquivado em Artes (ou não), Textos

3 Respostas para “Nadismo – Uma filosofia para o século XXI

  1. Pingback: PseudoArte 2.0

  2. Tarsila

    o Inútius dá um personagem de quadrinho junto com seu amigo Ócius (Não confundir com oxiúrus… que tira qualquer sujeito do ócio).

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