Requentar é Viver

Requentar é Viver

Mais um texto do fundo do baú, publicado originalmente no PseudoArte 1.0.
Vamulá!

Monotonia

Acordou pela manhã, às sete em ponto, e da janela do quarto já podia ver que fazia um tempo maravilhoso. Um sol esplêndido estava no céu, e as nuvens que se apresentavam sobre o fundo azul serviam apenas para emoldurar ainda mais ricamente aquela magnífica composição. Sobre um dos galhos da formosa macieira, solidamente plantada em seu jardim, podia ver (e via-o todo santo dia) um belíssimo bem-te-vi a cantar sua linda melodia, perfeitamente afinado, em escala de dó maior.

Levantou-se e encontrou, como de costume, seus chinelos ao pé da cama. Foi ao banheiro escovar os dentes, com pasta de hortelã, fio dental e três gargarejos de refrescante bucal. Depois, meteu-se embaixo do chuveiro e tomou um banho rápido. A água tinha a temperatura ideal, e o xampu era o seu favorito. A toalha, limpa e seca, aguardava pendurada no suporte da parede.

Terminado o banho, vestiu-se e desceu as escadas em direção à cozinha. Na porta, o jornal do dia o aguardava. O entregador era deveras pontual! A empregada já havia deixado a mesa do café preparada, a qual incluía, além da própria bebida escura e fumegante, suco de laranja, pães frescos e ainda quentes, queijo branco de baixas calorias, biscoito integral, geléia de morango e algumas pêras e maçãs de suculenta aparência. Comeu com moderação, e enquanto comia pôde ler no jornal que as ações nas quais havia investido há alguns meses atrás, subtamente dobraram de valor no último pregão.

Deixou a mesa e foi em direção à garagem, onde seu carro o esperava para conduzi-lo até o banco. Trabalhava como gerente. Era um carro de último tipo, quatro portas e dezesseis válvulas, comprado havia poucas semanas. Ainda cheirava a novo. Abriu a porta, sentou-se ao volante e virou a chave. O motor roncava poderoso. Levou a mão ao porta-luvas onde ficava guardado o controle remoto do portão. mas, de súbito, não o pegou.

Desligou o motor e saiu do carro. Caminhou de volta até a cozinha, não sem antes ser saudado, com algumas lambidas, pelo pequeno Rex, seu cãozinho yorkshire de estimação. Entrou novamente em casa, seguiu em direção ao móvel com gavetas, e ao abrir uma delas retirou uma faca de churrasco, muito nova e polida, além de extremamente afiada. Olhou-a por alguns instantes, enxergando na lâmina o reflexo do seu próprio rosto. Aço inox de primeira linha.

Após cair ao chão, e antes de perder completamente os sentidos, pôde ver ainda o grosso filete de sangue que escorria e espalhava-se por debaixo dos móveis. Ao observa-lo, constatou logo, tanto pela cor quanto pela textura, que tratava-se de um sangue de excelente qualidade.

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