Requentar é viver

Requentar é Viver

Monomania

Corriam atrás dela. Todos! Não a deixavam em paz! Dir-se-ia uma verdadeira monomania. E eram muitos. Adultos, jovens e até crianças. Eram, em sua grande maioria, homens, mas já recentemente algumas mulheres ensaiavam-se também em tais práticas. Essas modernidades…
Tinham até local apropriado. Não apenas um, mas vários; e embora fossem um pouco monótonos em sua aparência geral, eram amplos, bem cuidados e ao ar livre (não tinham pudores em admitir publicamente sua estranha fixação). Para lá acometiam aos milhares a vê-la sendo perseguida. E com volúpia!
Ó pobre! A que violências era a pequena submetida. Um verdadeiro complexo de amor-ódio. Freud teria lá amplo material para seus estudos. Logo que conseguiam apoderar-se dela, afastavam-na de si com extrema agressividade. E agrediam-se uns aos outros. Submetiam-se a esforços sobre humanos para alcançá-la, e logo que a tinham em seu poder, expulsavam-na para longe. E queriam por que queriam arremessá-la para dentro de um dos dois grandes cestos nos extremos do pátio! É certo que todos a isto queriam, embora pareça, aos olhos do observador isento, que alguns almejassem o cesto da direita, enquanto outros o da esquerda. Vá entender!
Um grande delírio extático apossava-se das massas quando conseguiam finalmente confiná-la ao cesto. Mas para surpresa e total estupefação, assim que o faziam, corriam a retirá-la e conduzi-la novamente ao centro do campo para recomeçarem as perseguições. Conclui-se com isto que o grande objetivo constitui-se no ato de colocá-la para dentro (alguma alusão fálica talvez), e não em mantê-la em seu cárcere.
Mas não termina por aí. Não! Sadismo extremo! Há sempre um enluvado à frente das traves impedindo que a pobre seja lançada ao alvo, frustrando assim a alegria de muitos. Metáfora da vida? Em meio a tão cruéis carestias, ainda mais esta. Por que não deixam que, cada qual a seu turno, lance a redonda de encontro às redes? Cada um segundo a sua necessidade. Satisfação de todos, equidade. Não querem. Há de haver o sofrimento.
E debatem-se sob os olhares atentos de uma plateia numerosa, que sofre junto, grita, exaspera-se numa grande transferência de expectativas. Acaso não poderia haver cestas e pelotas para todos? Certamente que a economia mundial possui, atualmente, os meios para tal. Se a grande satisfação dos humildes é ver a maldita bola chacoalhar o fundo da rede, se a felicidade mais sublime é alcançada através de um mínimo gesto, insignificante sob o ponto de vista material, por que obstar tanto sua realização? Por que privar o povo de tão imensa alegria? Assim é o ser humano, lobo de si mesmo.
Chegará o tempo em que não mais os povos serão reféns de um jugo (ou jogo) tão cruel? Levantar-se-ão as massas, tomarão para si os gramados, clamarão por justiça! E todos poderão, enfim, chutar com liberdade suas redondas para dentro das redes.
E neste dia veremos, finalmente, com grande orgulho e imensa glória, a volta dos gols ao campeonato carioca!

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