O bom, o mau e o feio

Outro dia, em um dos meus momentos de ócio reflexivo, passou-me pela cabeça uma dúvida um tanto cabulosa. Acompanhem o raciocínio.

Segundo os cristãos, quando você é malvado na vida (e por malvado, entenda-se, faz qualquer uma das coisas que você acha divertidas mas eles não concordam) você vai para o inferno. E ponto final, direto e sem escalas. Por outro lado, se você é um bom menino, de coração puro e usa fio dental diariamente, você irá para o céu. Também sem discussão.

Daí vem a questão. Se você se esforçou para viver com retidão e caráter, resistiu às tentações da vida mundana, comeu menos gordura trans… Enfim, se você fez tudo certinho conforme a tabuada, a tabela periódica e o Google Maps da fé, por que diabos* você não tem direito de escolher pra onde quer ir?

Eu, enquanto ateu dogmático e democrata xiita, penso que ninguém deveria ser obrigado a morar no céu. Até porque, os benefícios de lá não são muito bem especificados. Tem cerveja? PS3? Ar condicionado? E, mais importante que tudo isso, vai que todos os seus amigos vão parar no inferno?

O que é que você vai ficar fazendo no céu, meu filho?

Nessa história toda, nem os católicos se entendem. Na idade média inventaram até um conceito bem interessante. Como é sabido, todos os clérigos e intelectuais da época nutriam profunda admiração pelos filósofos e poetas da antiguidade. Sócrates, Platão, Cícero… Aquele pessoal ali da Grécia e de Roma. Mas, no final das contas, todos eles foram pagãos. Logo, certamente estariam no inferno.

Assim, como os membros da santa igreja não sentiam-se muito confortáveis sendo tietes de pecadores condenados (mais ou menos como se hoje, o Papa fosse fã do Marilyn Manson), inventaram que, no inferno, haveria um “cantinho do paraíso” para abrigar esses que, embora pecadores, fossem geniais e de boa índole. Algo assim como uma “área vip das trevas”.

Agora imagine se São Tomás de Aquino resolvesse bater um papo cabeça com Aristóteles. Não pode! Um nas alturas e o outro no andar de baixo. Não concordo. Muito sectarismo para o meu gosto.

O justo seria que, cada um merecedor das graças divinas, ganhasse seu passe livre para circular por onde bem desejasse. Munido deste Rio Card eterno, você estaria apto a dar aquela escapulida assim que começasse a sessão de aeróbica espiritual ao som do Padre Marcelo, ou poderia trocar o maná diário por aquele churrasquinho bem passado e uma caipirinha, no boteco do bafo quente.

Mas infelizmente, tudo isso são quimeras. As religiões em geral não são muito receptivas a propostas de flexibilidade e auto-determinação. Por essas e outras, é que eu permaneço devoto da minha descrença, e prefiro empregar minhas energias a atividades de cunho artístico ou intelectual.

Ao meu ver, essa opção é a mais garantida. Se no final das contas eu estiver errado, ainda terei a esperança de que meus quase-talentos valham-me uma cadeira cativa naquele setor reservado aos “infiéis limpinhos”.

Pode ser aquela ali, do lado do Pitágoras…

*Desculpem, ato falho.

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5 Comentários

Arquivado em Artes (ou não), Desenhos, Textos

5 Respostas para “O bom, o mau e o feio

  1. Ótimo texto, essa linha de raciocínio é muito boa! rss Esse chiqueirinho VIP do inferno deve ser disputadíssimo. O meu lugar pode ser ao lado do Drummond. rs

    bjs

  2. Meu DEUS! O Drummond tá no inferno?

  3. Adriana

    Show! Mas acho que o Papa deve ser fã da Madonna…

  4. Tarsila

    Adorei Álvaro. Já passei por essas crises, mas nunca soube desse “cantinho privilegiado” … rsrs.. Boa saída. Vai dizer que não foi criativa? Saindo dessa dicotomia céu-inferno, quente-fresco, bom-mal, fico com as idéias do Taoísmo, do Zen… uma abstração quase mundana!!

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