Requentar é Viver

Requentar é ViverBom dia a todos! Para ajudar a espantar o friozinho, mais um requentado direto do fundo da panela.

 

Abismo

 

Não tinha a menor idéia de como nem por quê havia ido parar naquele lugar. Era escuro e úmido, e muito apertado. Já havia perdido a conta de quanto tempo estava enclausurada. A angustia era crescente, e a expectativa de que algo ainda pior pudesse acontecer, só a deixava mais e mais desesperada. A temperatura havia subido muito algumas horas atrás, mas agora retornara à condição normal.

Para tentar conter o pânico, refugiava-se nas lembranças de outros tempos. Rememorava seus dias de infância, no campo. Vivia entre o verde, respirando o ar puro, sempre cercada por suas amiguinhas. Brincavam à luz do sol e dormiam sob o frescor da noite. Fora feliz.

Mas um dia, a vida a arrancou daquele sonho. Sem saber por quê, fora retirada de sua terra, de sua gente. Conheceu primeiro a estrada, e logo depois, a loucura da cidade. O barulho, a correria, a fumaça. Mergulhou nas entranhas da sociedade de consumo. A fábrica. Enfrentou a linha de produção mecanizada. Até que então, sem qualquer explicação, fora parar ali, naquele local incerto. Escuro e úmido.

As lembranças sumiam-se e o terror tomava-a novamente de assalto. Parece que algo lá fora estava a mover-se. A sensação aumentou, mais e mais, e o medo igualmente crescia. De repente, sente um solavanco. E outro. As paredes se movem. Parecia que, finalmente, o momento derradeiro chegara. Súbito, a prisão é rompida, por uma abertura, enxerga novamente a luz. Muito intensa. Não tinha noção do que havia do outro lado. Sabia apenas que havia luz, e para ela, era o bastante. Tinha a certeza de que, permanecendo ali, seu destino já estaria traçado. Sua única chance era a luz. Atirar-se.

Mas o que haveria do outro lado? Que perigos ou que delícias? Abismo? Não havia como saber. Era apenas uma chance, a única. Era saltar ou não. Com dificuldade, esgueirou-se. Já sentia os tremores recomeçando. Toda a estrutura a um passo da ruína. Da morte. Não pensou mais.

Saltou.

A poucos centímetros dali, uma voz humana exclama com desgosto: Droga! De novo! Isso sempre me acontece.

O contrariado indivíduo, abaixa-se no chão e com cuidado pega a azeitona verde que havia caído de sua empada bem na hora da mordida. Desapontado, joga a verdinha na lixeira.

Era a azeitona mais feliz de todo este mundo.

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